Que Paraíso Tropical era infinitamente superior a Duas Caras, nem discuto – personagens mais ricos, trama mais divertida e dose dupla de Negrini pra esquecer do Willian Bonner. Sem contar que a Marjore é terrivelmente ruim, disputando com Ferraço, seu antagonista, o papel de pior coadjuvante da história da TV brasileira. Contudo, os capítulos da invasão da favela da portelinha (números 82 e 83) foi formidável.
Resumindo, um grupo de pau-mandado do Marconi Ferraço foi destacado para a favela horizontal para dar fim em Juvenal “Fagundes” Antena. Não sei exatamente os interesses motivadores – além, é claro, se livrar dos personagens não-populares – como veremos mais adiante.
A tomada começa com “Assim Falou Zaratustra” de trilha, igual ao 2001-Uma odisséia no Espaço, no que seria o primeiro delírio da direção da novela. Além disso, slow motion e Marília Gabriela com um escudo de botox à prova de tiros na face, enquanto os evangélicos rezam pelo fim pacífico do conflito – seria um ataque do roteirista ao conglomerado Record?

É de uma personagem do núcleo crente que sai a primeira vítima. Em enlouquecida carreira, uma crente se mete na frente do tiroteio e é morta. Minutos depois, uma mãe de santo é atingida no terreiro, por se recusar a sair do local.
Os personagens estavam cortados do elenco. Podemos voltar à trama.
A pontaria, tanto dos invasores quanto da turma Carga Pesada dentro da favela era horrível, incalculável de tão ruim. Para ter idéia, em uma cena antológica Fagundes dá um incrível tiro de bazuca apenas como advertência, já que não acertou ninguém. Foi bem escalado o experiente ator para a cena, já que deve ser difícil demais dar um tiro desses e não acertar ninguém. Além disso, todas as armas dos resistentes estavam escondidas sob uma tábua na casa do fagundão, já que ele não usa a força bruta normalmente para mandar na Portelinha.


Outro que escondia uma garrucha em casa era o Nuno leal Maia, favelado e multifacetado, já que interpreta um surfista (de trem) em Duas Caras. Ele pega no trabuco e senta na mureta do seu barraco, abrindo fogo mais desprotegido que mulher de mini-saia em baile funk. Mesmo assim, por milagre, ele não é atingido. Vale ressaltar o esforço da mulher dele, que foi atucanar no meio do tiroteio, como se tivesse entrando num bingo.

Não contentes com o absurdo, a turma de Juvenal se defende da saraivada tombando uma mesa de sinuca e ficando atrás do tampo de madeira. Sim, pelos próximos 30 minutos de novela, os atores se protegem de tiros de metralhadora com um compensado que a gente consegue furar com uma tacada mais forte.

Depois ainda tem morte do Peréio, flashback da infância do Fagundes e tudo mais que temos direito. A melhor parte é esta aqui, o resto basta buscar no Youtube e assistir. Melhor que ver na TV.



