“Se o guri se chamar Henrique, para mim já é meio caminho andado” – disse a vizinha de praia em um desses veraneios passados.
Confesso que não entendi onde ela queria chegar. Talvez pela minha pouca idade na época, ou ainda por não ter nenhum amigo Henrique na praia. Pensando bem, eu não tinha nenhum amigo na praia.
Estar sozinho no universo praiano, apesar de tudo, tinha um lado bom: dava pra pensar por horas onde a frase da garota queria chegar. Tanto tempo que consegui tirar a vizinha de órbita e ampliar a questão, concluindo entre um e outro sorvete no calçadão que, seja qual for o destino, ter meio caminho andado é sempre um grande trunfo.
Eu, que só queria estar na metade do veraneio e contar os dias para voltar a Porto Alegre, passei a calcular outras metades. O quilometro 70 da Estrada Velha, a esquina sempre alagada na metade do caminho para o mar, a segunda casa de salva-vidas até as pedras no canto da praia. Trechos divertidos da minha viagem para longe do tédio.
Tanto que posso ligar para casa e contar que cheguei bem. Valeu o passeio. E com ele aprendi um monte de coisa sobre nomes e trajetos, descobri que o Cabo da Boa Esperança é bem na metade do caminho e que esse nome devia ajudar muito; e que a Parati que meus pais tinham homenageava uma praia na qual nunca iríamos passar o verão porque era muito longe.
Também não demorou muito para saber onde a minha vizinha queria chegar. Isso que eu nunca mais vi a garota e sigo sem conhecer Henriques. Acontece que para algumas pessoas, chamar-se Eduardo também é um caminho cortado pela metade. Cedo ou tarde, a gente conquista nosso espaço, independente do nome que nos deram.
Foi assim na minha viagem e nas maiores viagens já feitas. Tenho certeza que o foguete se chamar Apolo não ajudou a chegar na lua, assim como Discover, Endeavor e Challenger podem ser nomes imponentes, mas não levam a lugar algum. Talvez ao vazio, não do espaço, mas da falta de sensibilidade.
Se tivessem tempo pra pensar na beira da praia, até quem batiza toneladas de tecnologia aeroespacial e combustível sólido se daria conta que o importante mesmo é ter um bom companheiro de viagem, ou Sputnik, como se diz em russo.
Tão simpático para um satélite orbitando ao nosso lado, quando para alguém que divide o carro conosco. Se um nome desses não ajudar a chegar na metade do caminho, tudo bem. O que importa é ter um Sputnik com o mesmo destino. Seja até a praia, até a padaria ou mesmo se a nossa viagem for ficar sentado em um sofá surrado.
Tudo isso pode ser uma grande viagem, concordo. Mas tem uma coisa boa: vocês foram ótimos Sputniks.
*
Escrevi esse texto (ou quase ele) para uma publicação distribuída em uma estrada aqui do estado, que é a rota de fuga para quem está em Porto Alegre e quer chegar na praia. O convite foi da Sophia, que muito me deixou feliz. Tirando o prazo apertado, que fez com que o texto que eu entreguei fosse menos organizado que esse, foi uma surpreendente maravilha escrever sobre um tema que eu só faria sobre ameaça: veraneios e Henriques.